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quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Umbanda e Biomedicina


Umbanda e Biomedicina

 
 Nota de Introdução
PELO IRMÃO Pai Pedro de Ogum
A Umbanda, mesmo sendo chamada "Senhora da Luz Velada", nos trás sempre grandes desafios para que sempre possamos "andar na LUZ".
A Religião Umbanda é além de uma Religião, é uma forma de vida que nos trás conforto e nos auxilia sempre que necessitamos e nos dá aquela grande confirmação que é realmente sermos aquela pequena centelha que faz parte desse Grandioso Pai, que é Olorum (DEUS).

Este Estudo e Pesquisa realizado por Arnelle Gigio-Jacquemot da Universidade de Lille, mostra nos, numa prespectiva de observador independente todo o trabalho espiritual que se realizam nos Terreiros e Centros de Umbanda. 
Concerteza que existem deturpações, falsidades e formas de aproveitamento que não são a regra geral dos Centros de Umbanda que praticam realmente os fundamentos da Umbanda.

Por isso, achei interessante vos dar a conhecer este estudo, e espero que possa trazer luz aqueles que o lerem e que de uma outra forma poderem entender melhor esse grande mistério que a Umbanda - A Senhora da Luz Velada.


Umbanda e Biomedicina
Armelle Giglio-Jacquemot
(Universidade de Lille 3I – GRACC - França)
A expansão da biomedicina pelo mundo deu origem a várias formas de ajustamento com instâncias e sistemas terapêuticos não biomédicos que, localmente instituídos, também propõem suas respostas à infelicidade biológica. Nas sociedades onde estão implantadas, a biomedicina, as medicinas alternativas e as medicinas religiosas se encontram nas fronteiras moventes de suas áreas de intervenção, e esse encontro não deixa, claro, de produzir efeitos sobre cada uma delas.
O intuito de minha comunicação é, considerando o campo altamente diversificado e concorrencial do pluralismo médico brasileiro, examinar a relação da umbanda, religião com forte dimensão terapêutica, com a biomedicina, a partir de dados de campo recolhidos desde 1987 em vários terreiros da cidade e do Estado de São Paulo. Examinarei essa relação sob dois ângulos: um que questiona o posicionamento da religião frente à biomedicina, e o outro que se interessa na interiorização pela umbanda de elementos significativos do universo biomédico.
Para isso, vou centrar minha fala na análise de dois elementos que pertencem ao universo da umbanda: primeiro, a distinção êmica « doença material/ doença espiritual » e, segundo, as cirurgias espirituais.
I. A(s) UMBANDA(s)
A umbanda testemunha, desde suas origens, uma propensão e uma capacidade prodigiosas em igerir e digerir materiais culturais de todo tipo e de toda proveniência. Essa religião absorve a pluralidade que a cerca, e sua abertura ao elemento exógeno não se manifesta somente com as religiões que coexistem no Brasil e que participaram, em diversos graus, de sua constituição (Bastide, 1995). Ela se estende a todas as expressões e atividades da cultura que, de origem religiosa ou profana, ocupam um lugar de destaque no universo umbandista e, especialmente às medicinas e à cura. Com efeito, a doença e seu tratamento desempenham um papel central na umbanda e, para a maioria dos brasileiros que, qualquer que seja seu meio social, freqüentam seus terreiros, ela representa um recurso frente às dificuldades na vida e, notadamente, frente à doença (Camargo, 1961; Montero, 1985; Jacquemot, 1996, 1998).
O caráter polifágico da umbanda se manifesta na sua medicina para a constituição da qual colaboram desde o início, outras instâncias terapêuticas das quais ela absorve e reinterpreta, + ou – profundamente, práticas, objetos, saberes e representações. Entre as mais comuns e significativas, pode-se citar o espiritismo kardecista, os candomblés e o catolicismo popular com os quais a umbanda compartilha uma imbricação comum das dimensões religiosas e terapêuticas e, entre as medicinas não religiosas, a biomedicina e várias formas profanas de medicina popular. Apesar de marcada pela influência desses diversos universos terapêuticos, a medicina umbandista não é identificável a nenhum deles. Ela transforma os elementos incorporados e os submete a reinterpretações que os afastam, às vezes de maneira considerável, de seus universos originais de práticas e significação.
Com as « medicinas-fontes » das quais tira elementos de seu universo terapêutico, a umbanda mantem relações ambivalentes: ao mesmo tempo de proximidade, de complementaridade e de tolerância como é de esperar dessa religiã o profundamente plural ; mas também de oposição e de diferenciação no campo altamente competitivo do pluralismo médico brasileiro. Das relações da umbanda com essas medicinas diferentes, apenas uma vai reter nossa atenção: a que ela mantém com a biomedicina que, firmemente implantada no Brasil beneficia, entre todas, da maior legitimidade social, e que aliás, combateu a umbanda com muita dureza no início (Ortiz, 1978).
II. A DISTINÇÃO DOENÇA MATERIAL/ DOENÇA ESPIRITUAL
É através da distinção que ela estabelece entre « doenças espirituais » e « doenças materiais », que a umbanda delineia a fronteira que separa, da biomedicina, sua esfera de ação e de competência terapêuticas. Sinônimas de « doença material », as expressões « doença do médico », « do homem de branco » apontam explicitamente à identidade do tipo de terapeuta considerado apto a diagnosticar e a tratar as doenças assim denominadas e os terapeutas umbandistas não hesitam em lhe enviar doentes. A competência dos médicos, porém, se limita
às doenças materiais. Acaba aonde começa a da umbanda que se considera a grande especialista das doenças espirituais, doenças que os médicos são incapazes de diagnosticar e curar.
1 - As causas materiais das doenças
O recorte em doenças materiais e doenças espirituais não separa as doenças em função da parte da pessoa que é atingida – seu corpo (« parte material») ou seu espírito (« parte espirtual ») – nem segundo suas manifestações . Nenhuma classificação nosográfica se perfila atrás dessa distinção que, também, não remete à uma oposição entre doenças físicas e mentais.
Na umbanda, o corpo e o espírito estão numa relação demais simbiótica para que a doença atinja um, sem atingir o outro. Interagindo e se interpenetrando, esses dois componentes da pessoa estão implicados em toda doença, quer seja classificada como material ou espiritual.
O recorte é de ordem etiológica. Qualificar uma doença de material ou de espiritual é remetê-la as suas causas. Materiais ou espirituais, essas causas compõem os dois grandes registros do repertório etiológico geral no qual os médiuns se servem para explicar os males de seus pacientes. A doença é abordada como um acontecimento: importa, primeiro, determinar de que causas ele é o efeito, para poder, depois, recorrer ao tratamento e aos terapeutas apropriados.
Na umbanda, a doença é geralmente provocada pela penetração, no corpo, de agentes nefastos que, dotados ou não de intencionalidade, representam o que os fiéis designam com o termo global de « energias negativas ». Esses agentes são materiais ou espirituais (segundo sua proveniência, mundo material ou espiritual) como as razões e os mecanismos que explicam o porque e o como de sua intromissão. A cura de todas as doenças passa, fundamentalmente, pela expulsão das energias negativas que invadiram o doente, e pela sua alimentação em energias positivas que o reforçam e o protegem contra o perigo permanente, que representa para o seu bem-estar e o seu bem-viver, a ação das energias ruins que o cercam. Obviamente, não é sobre as causas espirituais das doenças que os médicos podem fazer valer suas competências, pois neste domínio, a umbanda lhes denega qualquer habilidade : as doenças espirituais não lhes dizem respeito, e não nos interessa aqui examinar suas causas. Bem mais interessante para o nosso propósito é o exame das causas que provocam as doenças materiais, pois é aí que a biomedicina se enxerta na medicina umbandista e contribui à sua explicação das doenças.
Com efeito, é nesse registro de seu repertório etiológico que a umbanda incorpora as causas biológicas, fisiológicas e físicas das doenças. Os males, que a exemplo da biomedicina, são considerados como efeito de um determinismo biofísico, são materiais.
Entre seus agentes mais comuns encontram-se os “micróbios, vírus e bactérias” considerados responsáveis por uma grande variedade de afecções. A umbanda privilegiando, no domínio da causalidade, as representações que conferem uma prioridade à exterioridade patogênica, não é de surpreender que ela conceda a esses agentes os primeiros lugares na explicação das doenças materiais. Eles são, aliás, integrados na categoria mais ampla de « sujeiras » ou « porcarias » que reúne o conjunto dos agentes exógenos identificados a energias negativas do mundo material: os agentes biológicos acima evocados; outros agentes mal definidos contidos no meio ambiente (no ar e na água); e as energias negativas transmitidas pelos seres humanos (geralmente produzidas pelos sentimentos « ruins » que eles sentem circunstancialmente em relação a terceiros). Entretanto, todas essas sujeiras só provocam a doença na medida em que conseguem penetrar num corpo vulnerável, isto é, enfraquecido. Os problemas que provocam remetem diretamente à relação do corpo com o meio físico e social.
2 - Um interesse muito relativo pelas doenças materiais
Isso dito, é importante assinalar que os terapeutas umbandistas muitas vezes não identificam o problema material de seus pacientes e não propõem explicações para este problema. Trata-se de uma diferença importante com as doenças espirituais cujas causas são sempre investigadas de maneira aprofundada. No caso das doenças materiais, os médiuns geralmente se contentam em dizer aos pacientes que o que eles têm é «material » ou ainda « é do calça branca ».
O fato dos médiuns não procurarem as causas das doenças materiais mostra, afinal, seu pequeno interesse para elas. Através da categoria genérica « doença material », a umbanda reconhece sobretudo que todas as doenças não são o efeito de causas espirituais e que existem doenças que são simplesmente o efeito de uma determinismo biofísico. Nesse sentido, quando uma doença é considerada como material pelos médiuns, ela é banalizada. O caráter banal que confere esse diagnóstico, não está relacionado com o grau de gravidade da doença. As doenças materiais são banais na medida em que são simplesmente doenças e não o sinal, a ser decriptado, de outra coisa : elas nunca adquirem a significação de doença-sanção, eleição, resgate ou persecução. Por isso, não tem muito para dizer sobre elas.
3 - Variedade das explicações à doenças materiais
O interesse relativo pela etiologia das doenças materiais pode, paradoxalmente, explicar por que suas causas são tão numerosas e diversas. À diferença das doenças espirituais, a umbanda não se preocupou em elaborar um repertório definido das causas das doenças materiais, nem em codificar suas cadeias etiológicas. No domínio das doenças materiais, os médiuns têm uma grande liberdade de interpretação. Pois, se as causas fisiológicas e biológicas são consideradas como materiais de maneira unânime, os conteúdos das explicações dadas pelos médiuns às doenças apresentam variabilidade e diferença entre si.
Os médiuns utilizam saberes que detêm - menos enquanto iniciados da religião do que enquanto membros de uma sociedade na qual coexistem e se combinam vários tipos de discursos e saberes sobre a doença e o corpo, vários modelos etiológicos e terapêuticos que são diversamente conhecidos, assimilados e utilizados por eles em função de suas experiências individuais das doenças, sua formação e trajetórias, suas origens e meios sociais e culturais. Se os médiuns se encontram em torno de uma mesma concepção da pessoa (composta de uma parte material e uma parte espiritual em relação simbiótica), e se todos eles identificam essa parte material ao corpo físico, ao organismo humano, eles não compartilham as mesmas representações e os mesmos conhecimentos desse corpo e de seu funcionamento, nem das causas e patologias suscetíveis de atingí- lo. Assim, os discursos que produzem sobre as doenças materiais, testemunham sua maior ou menor familiaridade com a linguagem, a abordagem e as práticas da medicina popular e da biomedicina, seu maior ou menor reconhecimento e utilização de uma ou de outra (Jacquemot, 1998). Desse ponto de vista, os enunciados diagnósticos formulados pelos espíritos de muitos médiuns da classe média alta não destoariam num consultório médico.
4 - Supremacia do espiritual sobre o material
Se as doenças materiais e espirituais são nitidamente separadas – quando se é doente, se sofre de uma ou da outra – a causalidade material e espiritual não se excluem. A seqüência causal reconstituída pelos médiuns pode integrar causas que pertencem aos dois registros. No caso das doenças materiais, é na origem que a causalidade espiritual se enxerta e é aí que ela intervem no desencadeamento dessas doenças: à origem material acrescenta-se uma origem espiritual que vem sobredeterminá-la como a origem primeira. Assim, olhando de perto,constata-se que mesmo as doenças materiais, que parecem escapar da lógica de um determinismo espiritual, não são apenas o efeito de causas materiais.
Isso não é surpreendente na medida em que a origem da doença material remete aos fatores que provocam a fraqueza inicial da parte material e explicam sua vulnerabilidade.
Ora, na umbanda, é o espírito que imprime sua força ao corpo e que o protege, e nada de nocivo pode « pegar » em quem tem um espírito forte. Nisso, todas as doenças materiais e espirituais se encontram: o enfraquecimento é sempre, em primeiro lugar, o do espírito e o que acontece ao corpo é, então, determinado, em primeiro lugar, pelo que acontece ao espírito.
5 - Que complementaridade e que partilha?
No entanto, a complementaridade não conflituosa com a biomedicina, que parece garantida pela distinção entre doenças materiais e espirituais, não é tão franca quanto parece. É certo que a biomedicina não está colocada em questão: constantemente presente como sistema de referência, no plano de fundo da triagem das doenças realizada pelos médiuns, sua legitimidade é afirmada e reforçada pela religião. Mas a umbanda se apossa mais do território que ela parece abandonar a biomedicina, do que deixam pensar os discursos de seus terapeutas. Pois se as doenças espirituais são da sua exclusiva competência, ela não delega total e sistematicamente o diagnóstico e o tratamento das doenças materiais aos homens de branco. Seus médiuns, julgados capazes também de identificá- las, cuidam freqüentemente de seu tratamento. A umbanda reconhece, assim, aos médicos uma competência específica, mas não exclusiva, sobre as doenças materiais.
Nesse domínio, a autoridade dos médicos não pode ser absoluta, já que são somente aptos a tratar a vertente material dessas doenças. A vertente espiritual não diz respeito a eles, e apesar de sua importância ser muito minimizada nas doenças materiais, é necessário cuidar da fraqueza do espírito. Para os umbandistas, esse reforço espiritual favorece o sucesso do tratamento biomédico e acelera a cura; também evita as recaídas ou o surgimento de outras doenças às quais o doente fica exposto quando curado apenas dos aspectos materiais da sua doença. Atribuindo uma origem espiritual às doenças materiais, a religião inscreve, então, essas doenças no seu campo terapêutico e estabelece a necessária complementaridade da ação combinada dos médicos e de seus médiuns para a obtenção da cura.
III. MÉDICOS DO ASTRAL E CIRURGIAS ESPIRITUAIS
Antes de terminar, um exemplo merece ser dado da incorporação pela umbanda de elementos significativos do universo biomédico, um exemplo bem significativo da « umbandização » á qual é submetido o biomédico ingerido: trata-se da figura dos próprios médicos que a umbanda integra à lista cumprida de suas entidades, e de uma atividade bem representativa de sua prática, a cirurgia. A umbanda possui uma categoria de espíritos, os « médicos do Astral » ou « médicos espirituais », cujos caráteres estereotipados são manifestadamente emprestados de seus colegas terrenos. Chamados de « Doutores » pelos fiéis, eles são sobretudo presentes, assim como suas cirurgias, nos terreiros marcados pela influência do Kardecismo.
Especialistas em « medicina astral », esses desencarnados eram, em vida, médicos e muitas vezes seus médiuns exercem uma profissão médica ou paramédica. Como os outros espíritos da umbanda, eles descem para « trabalhar » e suas consultas, ditas « médicas », são explicitamente ligadas às dos « médicos da Terra » que geralmente completam. Uma de suas importantes tarefas, é de ajudar os doentes a entender o que lhes dizem os médicos. Os consulentes repetem as suas falas, levam receitas e resultados de exame no intuito de obter esclarecimentos. Querem seu palpite sobre os diagnósticos enunciados e os tratamentos prescritos. Os doutores espirituais às vezes receitam « remédios da farmácia », e geralmente instigam seus pacientes, e até com bastante firmeza, a ir nos médicos da Terra e a seguir seus tratamentos. A ação e o papel desses espíritos são, então, geralmente encarados como complementares aos dos médicos: depois de terem visto os primeiros, os doentes podem ir (ou voltar) nos segundos que saberão curá- los.
Já não se pode dizer o mesmo desses médicos do Astral que, especialistas em cirurgia,realizam « cirurgias espirituais » ou « mediúnicas » consideradas como superiores e substituíveis às operações ditas «de hospital ». Adeptos ou simples freqüentadores, numerosas são as pessoas que contam ter sido operadas espiritualmente com sucesso « da vesícula », « de úlceras », « da coluna », « da garganta », « do joelho », « de hérnias », « dos olhos », « de pedras no rins », de « tumores no cérebro », « no seio », etc. Se dar ouvido a eles, nada é impossível a esses cirurgiões que se libertaram das limitações da matéria.Aonde se manifestam, esses espíritos muitas vezes têm como atributo um material de trabalho composto de algodão, de éter (para « anestesiar » o lugar a ser operado), de álcool (para « desinfetar » antes e depois da intervenção) e de instrumentos cortantes e pontudos,facas de cozinha, punhais, tesouras, pregos. Usam também, às vezes, de um lençol branco com o qual recobrem o corpo do futuro operado ou, ainda, de panos brancos com os quais delimitam a área a ser operada, como um campo operatório. « É como se fosse no médico, mas é diferente », dizem os que passaram por essa experiência. De fato, com seus instrumentos, ou simplesmente com suas mãos, os médicos do Espaço praticam incisões que não são visíveis: simulando o ato de cortar, recortar, picar, eles dão leves pancadas com as lâminas e pontas nas regiões a serem operadas. Como o algodão, o álcool e o éter, seus objetos cortantes fazem o papel de acessórios numa representação inspirada no modelo da cirurgia biomédica.
Segundo os operados e os médiuns que recebem esses espíritos, o que os cirurgiões do Astral executam na superfície do corpo é o que lhe fazem dentro. Sim, eles cortam mas seus « cortes » são como a cirurgia que praticam: são espirituais e não apresentam, então, a materialidade das incisões da cirurgia terrestre. É nisso, aliás, que se expressa sua superioridade. É também o que garante seu sucesso com os consulentes pois suas operações são isentas de tudo que eles temem no ato cirúrgico médico : « não tem sangue », « não sai sangue », « não abre », « não tem risco », « não dói », « depois, a gente se sente bem », insistem os operados. Os cirurgiões espirituais operam com sua « força », muitas vezes comparada com um « raio laser » que sai de suas mãos e penetra nos corpos. Uma vez a intervenção terminada, os doentes voltam para a casa com a recomendação de descansar e de parar de trabalhar durante um período variável. Às vezes, o Doutor pede para eles tomarem chás e também medicamentos, geralmente anti-inflamatórios e antibióticos. Os operados associam intimamente a cura do mal com a desaparição física do elemento do corpo no qual ele se alojou, tirado pelo espírito. O que a cirurgia espiritual guarda da cirurgia biomédica e lhe empresta, é a idéia e o ato de ablação, isto é, um tipo peculiar de intervenção sobre o mal que engaja as mesmas representações da cura que as outras práticas subtrativas do capital terapêutica umbandista. Aqui também a ação terapêutica consiste em tirar alguma coisa. No entanto, os cirurgiões espirituais nunca mostram o que dizem ter tirado, mesmo sob a forma de um objeto simbólico. A realidade da subtração é admitida mesmo que o elemento físico, tido como « tirado », não tenha sido concretamente dado a ver. O que, na cirurgia espiritual, aparece como a prova tangível da verdade das representações subtrativas, são as cicatrizes internas, pretendidamente constatadas pelos médicos, e as marcas externas que, às vezes, deixam  momentaneamente, e que são vistas como os sinais manifestos da intervenção. A metáfora cirúrgica também comanda as sensações dos operados que dizem perceber que « alguma coisa está acontecendo », que « se corta por dentro » como « com uma navalha ».
IV. CONCLUSÃO
Doenças materiais e doenças espirituais, micróbios e energias negativas, homens de branco e casais médiuns /espíritos curandeiros, médicos da terra e doutores do além, remédios da farmácia e remédios de ervas, cirurgias de hospital e cirurgias mediúnicas, os pontos de encontro da umbanda com a biomedicina são numerosos tanto dentro de seu universo – no que diz respeito aos materiais biomédicos (ou de inspiração biomédica) que ela importa e umbandiza de maneira durável – quanto fora, através das condutas de recursos plurais que sua medicina - pouco
exclusiva - permite e até incentiva. Os terreiros de umbanda são um viveiro fecundo para a edificação de uma pluralidade – das etiologias, dos terapeutas, das práticas e condutas terapêuticas – que se declina sob figuras múltiplas. Esta pluralidade é, aliás, especialmente ativada frente as doenças materiais, para a cura das quais o que prevalece não é a atribuição de um sentido ao mal (diferentemente das doenças espirituais) mas uma resposta pragmática de cuidados que autoriza o recurso a tudo que é suscetível de aumentar a eficiência da ação contra o mal, até o que oferecem outras medicinas e notadamente a dos homens de branco, cujo monopólio é contestado mas a eficácia altamente reconhecida.
Os grandes arquitetos dessa pluralidade são os donos de terreiros e seus médiuns que fecundam a medicina umbandista com suas respectivas contribuições. Fornecedores de diagnósticos e de tratamentos, conselheiros espirituais tanto quanto terapêuticos guiando seus consulentes na busca de um melhor-estar e um melhor-viver, eles mobilizam e combinam conhecimentos, práticas e possibilidades de recursos oriundos dos universos médicos, profanos e religiosos, aos quais têm (tiveram) acesso e dos quais foram acumulando e incorporarando, elementos explicativos e terapêuticos. Os terapeutas umbandistas representam a máxima expressão do que Jean Benoist chama de « passeur culturel », designando por esse termo os terapeutas que « construidores de um pluralismo que abrange o que parece a outros contradições », « vão-e-vem entre as várias fontes de conhecimentos dos quais dispõem » e « pulam, sem tomar cuidado, a s fronteiras entre técnicas ou entre teorias e elaboram no dia-a-dia as práticas híbridas » (1996: 12-13. A tradução é minha). O próprio percurso que leva esses indivíduos a se tornar médiuns-terapeutas os prepara, muito bem, para o papel de « passeur culturel ». Pois eles são geralmente antigos doentes que se tornaram médiuns no final de buscas pela cura geralmente longas e penosas, nas quais exploraram e combinaram com esperanças e pragmatismo numerosos recursos, transpassando primeiro por sua conta própria - e não sem reticências - muitas barreiras intelectuais, sociais e culturais colocadas entre as medicinas.


Axé a todos Irmãos de Fé
Emidio de Ogum
http://espadadeogum.blogspot.com

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