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terça-feira, 8 de junho de 2010

Indios fazem devolução da Bíblia ao Papa




bolivianos


Índios Fazem Devolução da Bíblia em1985 – Para João Paulo II

Esta matéria foi adicionada a nossas postagens por tratar-se de um fato muito relevante na cultura religiosa dos Índios Bolivianos.

LA PAZ – Os índios dos Andes e da América decidiram “aproveitar a vi sita” do Papa João Paulo para devolver-lhe a Bíblia, pois, “em cinco séculos, ela não nos deu nem amor, nem paz, nem justiça”, segundo uma carta de dirigentes indígenas bolivianos enviada ao Sumo Pontífice. “Por favor, leve a sua Bíblia e a dê aos nossos opressores, cu­jos corações e cérebros precisam mais de seus preceitos morais”, acres centam os índios na carta enviada ao Papa, que foi divulgada ontem em La Paz, assinada por Máximo Flores, do Movimento Índio do Kallasuyo (Aymara) e Evmo Valeriano, do Partido Índio (Ay mara) e Ramiro Reynaga, do Movi mento Índio Tupac Katari (Kheswa), representando as comunidades da Bolívia e do Peru.
Reynaga disse que quando o Papa se encontrar em Cuzco, capital do anti go império Inca, os índios lhe devol verão os evangelhos levados por colo ni za dores para oprimir os povos ameri canos, e destruirão publicamente seus vestidos “ocidentais” para vestir seus trajes típicos. Ao tornar pública a carta ao Papa, o dirigente índio disse que “co mo parte do intercâmbio colonial imposto, recebemos a Bíblia, que foi a arma ideológica do assalto colonialista. A espada espanhola que de dia atacava e matava corpos de índios, de noite se tornava a cruz que atacava a alma indígena”.
A carta destaca que os índios que podem saudar o Papa João Paulo quan do chegar ao território de Tawan tinsuyu, milenar por manter os pre ceitos de paz e humanidade, e acres centa: “Apesar de nossa enorme quanti dade de minerais, petróleo, campos de plantação e outras riquezas, somos povos famintos, doentes, ignorantes, fanáticos por esta ou aquela seita, reli giosa ou anti-religiosa”.
Em seguida, afir ma que desde a chegada de Colombo à América, impõe-se uma cultura, um idioma, uma religião, alguns valores que correspondiam à Eu ropa, a mesma que gerou tanto o co munismo totalitário quanto o capitalismo injusto.
E agora, afirma o documento, “Sua San tidade vem visitar e abençoar o opres sor estrangeiro, aquele que des fru ta o sofrimento alheio ou vem visitar o povo natural oprimido, aquele que so fre?” As contradições não somente acon tecem entre o comunismo e o capi talismo ou entre a direita e a esquerda, mas também “na alternativa política vital, primeira e necessária, que está for mada por duas opções: liberdade dos povos contra o colonialismo eu ropeu”.

Texto publicado no Jornal de Umbanda Sagrada em Abril de 2009, tem como fonte o Jornal Estado de Minas (3-2-85).


Paz Amor e Harmonia
Emidio de Ogum
http://espadadeogum.blogspot.com

África as Irmandades Maracatu e Danxomé.


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Para ordenar a administração dos negros trazidos como escravos para o Brasil a partir de 1538, os colonizadores portugueses incentivaram a instituição de reis e rainhas negros protegidos pelas irmandades de N.S. do Rosário e São Benedito…..

Os préstitos de coroação deram origem aos folguedos musicais do maracatu, informa o historiador Leonardo Dantas Silva em seu ensaio Maracatu: presença da África no carnaval do Recife, publicado em 1988 pelo Centro de Estudos Folclóricos da Fundação Joaquim Nabuco.
Como cita Semira Adler Vainsencher da Fundação Joaquim Nabuco ,cabe ressaltar que os africanos, que foram transportados como escravos para o Brasil, pertenciam a tribos (ou nações) distintas, tais como as de Angola, Benguela, Cambinda, Moçambique, Congo, Cassanges, entre outras. E cada uma delas possuía as suas línguas (ou dialetos), os seus costumes (conselho de anciãos, festas), e rituais sagrados e religiosos específicos (ritos de Xangô, festas dos mortos e festas dos reis magos).
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No Congo, em particular, os negros possuíam certos privilégios, podendo eleger um rei (no idioma pátrio, o seu Muchino riá Congo), e reinar sobre as pessoas das demais nações da África, fossem elas crioulas ou africanas, livres ou escravas. Neste sentido, o primeiro compromisso da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, autorizando a coroação de um rei do Congo, em suas festas, está registrado no dia 8 de maio de 1711.
Foi para sobreviver à dor da escravidão e do exílio (tanto da terra natal, quanto dos familiares e amigos) que os escravos trataram de se unir no novo habitat, harmonizando os seus ritos ancestrais, da melhor forma possível. Dessa maneira, as agremiações religiosas representavam um elo importante, através das quais os negros podiam expressar as suas necessidades de defesa e proteção, os seus desejos de liberdade, de caridade para com o próximo e de solidariedade humana.

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As festas da Irmandade dos Homens Pretos eram constituídas, então, por danças e batuques que não faziam parte da liturgia católica. Sendo assim, os rituais manifestados por esses irmãos chegaram, até, a ser proibidos pela Inquisição.

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Construída pelos jesuítas no século XVIII, a igreja era o centro dos festejos de tradição africana, como a Taieira e a Chegança. Atualmente ainda se realiza a Procissão dos Fogaréus e a Chegança, com participação exclusiva dos homens. Monumento histórico tombado pelo Iphan.
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Os quilombos, em particular, tanto o de Palmares quanto os demais, entre o Cabo de Santo Agostinho e o rio de São Francisco, eram expressões do espírito associativo dos africanos. E essa tendência associativa, advinda dos quilombos (que se situavam em pleno meio rural), estendeu-se, também, às zonas urbanas.
A Irmandade conservava o sistema de coroação presente na África, com os rituais e as procissões em maracatu, mantendo os arqueiros à frente, dois cordões de damas de honra, os símbolos religiosos, as bonecas enfeitadas, os jacarés, os gatos, os dignitários e, finalmente, o rei e a rainha do Congo, seguidos por músicos. No primeiro domingo de outubro de 1645, segundo os registros, Henrique Dias festejou, com os seus irmãos negros, na Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos, todas as pompas de sua padroeira.
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Também estão registrados nos livros da Irmandade, até o ano de 1888, todos os coroamentos que se fizeram dos reis e rainhas da Angola, do Congo e de Cambinda. Foi mediante essas coroações que se originou o maracatu, uma das manifestações mais belas e expressivas do folclore nordestino.
O desaparecimento da instituição do rei do Congo (Muchino Riá Congo) com a abolição da escravatura levou o maracatu a desfilar seus batuques e danças nos dias dos Santos Reis, nas festas de Nossa Senhora do Rosário e no carnaval,mais antes de falar sobre o Maracatu,vamos recordar um pouco das raizes dos negros,da africa e algumas cidades importantes.
Segundo Alberto da Costa e Silva ,a percepção européia da África era a de um continente vazio, já que quase não tinha brancos, um continente vazio a pedir povoamento e inversões. E, na Europa, sobejavam gente e dinheiro. A África aparecia aos europeus como um El Dorado, com o ouro de Buré, de Lobi, do país achanti e de Sofala, com manadas infindáveis de elefantes e uma infindável produção de marfim, com cobre, ferro e estanho, com alúmen, almíscar, cera, borracha e óleos vegetais, e com extensas terras por cultivar.
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A África só abria para o exterior um pouco da casca. Assim fora desde sempre. O estrangeiro se parava no Sudd, ao sul da Núbia, em Ualata, Gana, Gaô, Tombuctu e outros caravançarais do Sael, em Quiloa, Mombaça, Angoche, Zanzibar e iguais feitorias do Índico e, desde a abertura do Atlântico, nos entrepostos e fortins de Bissau, El Mina, Ajudá, Luanda, Benguela e tantos mais. Até meados do século XIX, o europeu só avançava alguns passos para fora de seus muros e paliçadas em algumas poucas áreas e, na maior parte dos casos, com o consentimento e o apoio dos africanos, ou sob sua vigilância.
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O que seria de estranhar-se é que assim não fosse, tão intensas foram as relações e as trocas entre as duas margens do Atlântico. O Brasil é um país extraordinariamente africanizado. E só a quem não conhece a África pode escapar o quanto há de africano nos gestos, nas maneiras de ser e de viver e no sentimento estético do brasileiro. Por sua vez, em toda a outra costa atlântica podem-se facilmente reconhecer os brasileirismos. Há comidas brasileiras na África, como há comidas africanas no Brasil. Danças, tradições, técnicas de trabalho, instrumentos de música, palavras e comportamentos sociais brasileiros insinuaram-se no dia-a-dia africano.
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Arquitetura brasileira,sobrado clássico em lagos,Nigéria.
E comum que lá se ignore que certo prato ou determinado costume veio do Brasil. Como, entre nós, esquecemos o quanto nossa vida está impregnada de África. Na rua. Na praça. Na casa. Na cidade. No campo. O escravo ficou dentro de todos nós, qualquer que seja a nossa origem. Afinal, sem a escravidão o Brasil não existiria como hoje é, não teria sequer ocupado os imensos espaços que os portugueses lhe desenharam. Com ou sem remorsos, a escravidão é o processo mais longo e mais importante de nossa história.
Isso não impediu que se fossem estabelecendo, desde o século XVII, mas sobretudo a partir do XVIII, fortes vínculos entre certos pontos do litoral africano e as costas atlânticas das Américas, como conseqüência do tráfico de escravos. O comércio de braços humanos não aproximou apenas as praias que ficavam frente a frente, mas estendeu sertão adentro o seu alinhavado, uma vez que muitos dos escravos trazidos para o Brasil e que foram trabalhar em Minas ou Goiás vieram de regiões do interior do continente africano, das savanas e das bordas dos desertos.
Não eram, portanto, falsos, como pareceram a tantos leitores e críticos, os versos em que Castro Alves se referia a escravos como vindos de regiões áridas. O poeta, que tinha familiares envolvidos no tráfico, sabia do que falava, quando em O Navio Negreiro,A Canção Ao Africano, disse, da terra deste, que ”o sol faz lá tudo em fogo, / faz em brasa toda a areia”. descreveu os cativos a dançarem no convés como “os filhos do deserto / onde a terra esposa a luz, / onde voa em campo aberto / a tribo dos homens nus …” Ou quando, em
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No território brasileiro, reis e nobres africanos, vendidos por seus desafetos como escravos, buscaram, algumas vezes, reconstruir as estruturas políticas e religiosas das terras de onde haviam partido. Isso terse-ia verificado — para citar o caso mais conhecido — com Nan Agotiné, a mãe do rei Guezô, do Danxomé, Dangomé, Daomei ou Daomé. Passada às mãos dos traficantes pelo rei Adandozã, ele teria refeito os seus altares e a sua Corte na Casa das Minas (ou Querebetam de Zomadonu), em São Luís do Maranhão . Outros sonharam voltar à África e reconquistar as posições perdidas, não se excluindo que hajam conspirado para isso. Não faltaria quem lhes levasse as mensagens a adeptos e descontentes na terra natal, pois a tripulação dos navios negreiros era em grande parte africana. Um desses príncipes quase logrou tornar real o sonho. Chamava-se Fruku, no Danxomé, e foi vendido ao Brasil pelo rei Tegbesu, provavelmente para permitir que Kpengla ascendesse ao trono. Viveu no Brasil vinte e quatro anos e voltou à Costa dos Escravos com o nome de Dom Jerônimo. E como Dom Jerônimo, o brasileiro, o príncipe Fruku disputou o trono do Danxomé, após a morte de Kpengla, em 1789, e só por pouco o perdeu para Agonglo.
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Repito: muito do que se passava na África Atlântica repercutia no Brasil, e vice-versa. Os contatos através do oceano eram constantes: os cativos que chegavam traziam notícias de suas nações, e os marinheiros, os mercadores e os ex-escravos de retorno levavam as novas do Brasil e dos africanos que aqui viviam para uma África que era ainda, no início do século XIX, um continente sem senhores externos.
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De colônias havia somente o Cabo da Boa Esperança e as possessões portuguesas. Não tinham elas, porém, as dimensões territoriais com que figurariam depois nos mapas. Cada uma era apenas uma coleção de pequenas cidades, vilas, vilarejos e entrepostos comerciais, com restrito acesso às terras que a circundavam e ainda menor controle efetivo sobre elas. Os numerosos estabelecimentos europeus encravados em outros pontos da Costa pagavam aluguel ou direitos de comércio aos reis, régulos ou chefes locais. Feitorias mercantis, quase todas dedicadas primordialmente ao tráfico negreiro, como Saint-Louis, Goréa, Cachéu, Bissau, El Mina e Cape Coast, suas populações continham pequena quantidade de mulatos. Esses eram mais numerosos nas comunidades fundadas por ex-escravos retornados do Brasil, Cuba e Venezuela, como Atouetá e Porto Seguro, e nos bairros brasileiros de Acra, Agoué, Ajuda, Porto Novo, Badagri e Lagos.
Havia ainda o caso especial de Freetown, na Serra Leoa, onde os ingleses colocaram, como colonos, no reino temne de Koya, ex-escravos que combateram ao lado deles na guerra pela Independência dos Estados Unidos. O exemplo seria seguido, mais tarde, em Bathurst, Monrovia e Libreville. Esses refúgios para ex-escravos transformaram-se em embriões de colônias — a da Serra Leoa já em 1808 — e de uma república nos moldes americanos, a da Libéria.
A África, sempre houve nações: povos unidos pelo sentimento de origem, e língua, história, crenças, desejo de viver em comum e igual vontade de destino. E sempre houve noções que se cristalizaram em estados. Basta lembrar Gana, construída pelos soninquês, e o Mali, com seu núcleo mandinga. Mas o preconceito teima em chamar tribos às nações africanas, sem ter em conta a realidade de que não podem ser tribos grupos humanos de mais de 60 milhões de pessoas, como os hauçás, ou superiores ou semelhantes em número às populações da Bélgica, do Chile e da Suécia, quando não, da Argentina e da Espanha.
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O conceito de nação podia, aliás, ser ainda mais profundo, na África, do que o enunciado por Renan. Assim no Danxomé. Mais que um estado-nação, o Danxomé era uma realidade espiritual: a soma dos tons mortos, desde o início dos séculos, com os vivos e com os que ainda haviam de nascer. A nação desdobrava-se no tempo sob disfarce de eternidade: dela e de sua representação como estado não se excluíam ancestrais e vindouros.
África é um continente maciço. As linhas de seu contorno são simples e precisas.
Desenham um litoral sem grandes reentrâncias ou saliên-cias, quase sem golfos, baías, penínsulas, ou pontas estreitas. Ao norte, ogolfo de Gabés e o golfo de Sidra ou Sirtes; ao sul, as baías de Delagoa,Walfish e Mossel; no golfo da Guiné, os golfos do Benim e Biafra; junto aGibraltar, o cabo Spartel; frente às Canárias, o cabo Jubi; na Mauritânia, o cabo Branco; no Senegal, o cabo Verde; ao sul do continente, os cabos da Boa Esperança e das Agulhas; no extremo da península da Somália, o cabo Guardafui.
Mesmo a parte mais acidentada, a que se volta para o Mediterrâneo,não se compara às margens européia e asiática daquele mar. A concisão da costa norte-africana contrasta com a complexidade e a exuberância dos lito-rais mediterrânicos da Europa e da Ásia, a se agitarem e fragmentarem, ner-vosos, sobre o mapa, enquanto, na margem sul, há uma aspiração de simpli-cidade e repouso.



Paz Amor e Harmonia 
Emidio de Ogum
http://espadadeogum.blogspot.com

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Fenix - um pássaro que é único



A Fenix

Na Índia vive um pássaro que é único: a encantadora fênix tem um bico
extraordinariamente longo e muito duro, perfurado com uma centena de
orifícios, como uma flauta. Não tem fêmea, vive isolada e seu reinado
é absoluto. Cada abertura em seu bico produz um som diferente, e cada
um desses sons revela um segredo particular, sutil e profundo. Quando
ela faz ouvir essas notas plangentes, os pássaros e os peixes agitam-
se, as bestas mais ferozes entram em êxtase; depois todos silenciam.
Foi desse canto que um sábio aprendeu a ciência da música. A fênix
vive cerca de mil anos e conhece de antemão a hora de sua morte.

Quando ela sente aproximar-se o momento de retirar o seu coração do
mundo, e todos os indícios lhe confirmam que deve partir, constrói
uma pira reunindo ao redor de sí lenha e folhas de palmeira. Em meio
a essas folhas entoa tristes melodias, e cada nota lamentosa que
emite é uma evidência de sua alma imaculada.

Enquanto canta, a amarga dor da morte penetra seu íntimo e ela treme
como uma folha. Todos os pássaros e animais são atraídos por seu
canto, que soa agora como as trombetas do Último Dia; todos aproximam-
se para assistir o espetáculo de sua morte, e, por seu exemplo, cada
um deles determina-se a deixar o mundo para trás e resigna-se a
morrer. De fato, nesse dia um grande número de animais morre com o
coração ensanguentado diante da fênix, por causa da tristeza de que a
veem presa. É um dia extraordinário: alguns soluçam em simpatia,
outros perdem os sentidos, outros ainda morrem ao ouvir seu lamento
apaixonado.

Quando lhe resta apenas um sopro de vida, a fênix bate suas asas e
agita suas plumas, e deste movimento produz-se um fogo que transforma
seu estado. Este fogo espalha-se rapidamente para folhagens e
madeira, que ardem agradavelmente. Breve, madeira e pássaro tornam-se
brasas vivas, e então cinzas. Porém, quando a pira foi consumida e a
última centelha se extingue, uma pequena fênix desperta do leito de
cinzas.

Aconteceu alguma vez a alguém deste mundo renascer depois da morte?
Mesmo que te fosse concedida uma vida tão longa quanto a da fênix,
terias de morrer quando a medida de tua vida fosse preenchida.

A fênix permaneceu por mil anos completamente só, no lamento e na
dor, sem companheira nem progenitora. Não contraiu laços com ninguém
neste mundo, nenhuma criança alegrou sua idade e, ao final de sua
vida, quando teve de deixar de existir, lançou suas cinzas ao vento,
a fim de que saibas que ninguém pode escapar à morte, não importa que
astúcia empregue. Em todo o mundo não há ninguém que não morra.

Sabe, pelo milagre da fênix, que ninguém tem abrigo contra a morte.
Ainda que a morte seja dura e tirânica, é preciso conviver com ela, e
embora muitas provações caiam sobre nós, a morte permanece a mais
dura prova que o Caminho nos exigirá".

por Farid ud-Din Attar (em "A Linguagem dos Pássaros")

Axé a todos
Emidio de Ogum
http://espadadeogum.blogspot.com

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

A Historia de Miranez



Fernando Miranez de Olivídeo era filho de casal nobre do norte da Espanha.
Estudioso, aprofundava-se na história dos povos e nações da Terra. Deteve-se com interesse na descoberta das Américas.
Tinha notícias dos silvícolas, habitantes dessa nação nova e da escravidão em desenvolvimento, imposta pelos estrangeiros conquistadores, não aceita pelos primeiros, que se revoltavam.
Acompanhou interessadamente a implantação do trabalho escravo do homem de raça negra, levado à força do continente africano, que, por sua característica passiva, aceitava o grilhão e o açoite, servindo aos interesses daqueles que avidamente se apossaram das terras.
Fernando era conhecido de Felipe IV, rei de Espanha, que sabia de seus princípios de integridade e os dotes de elevada moral de que era portador.
Como tinha planos relativos a ele, durante uma entrevista que lhe concedera, em caráter íntimo, Felipe dá início à execução dos mesmos, falando-lhe convincente:
‘- Caro amigo, conheço vossos dotes e vos considero pessoa grata da Família Real, que conta com eles para defender seus interesses, bem como os de nossa Espanha.
Sabemos que Portugal começa a se levantar de novo e a sua ganância por ouro, prata e pedras preciosas é desmedida. Entende que ninguém tem direitos sobre as terras que, por acaso, um de seus navegadores descobriu. Por isso, resolvi constituir-vos meu representante.
Ide, meu filho, para a terra adornada pela cruz formada por cintilantes estrelas. Sereis os ouvidos do Rei e a boca de Espanha. Sereis dotado das instruções do que devereis fazer, bem como das credenciais que vos darão poderes de Chefe de Estado. Depois de tudo consumado, tereis a vossa glória; sereis imortalizado pela história e tereis o reconhecimento de toda a Espanha. Em nome dela, eu vos abençôo.’
Miranez, a tudo ouvia pacientemente, atento às intenções ocultas de Felipe, que ele bem identificava. Contrariava-o conviver com interesses da ordem que ele tanto subestimava, mas sua intuição o prevenia da oportunidade de realizar as suas íntimas aspirações e anseios, que eram conhecer e viver nas Terras de Santa Cruz, a fim de participar de sua preparação como Pátria do Evangelho.
O íntimo do seu ser era de total alegria, quando respondeu ao monarca:
‘- Majestade, conheço vosso ideal em relação à Espanha e rogo a Deus para vos ajudar a formar nobres idéias em benefício do povo. Eu vos agradeço de coração e serei eternamente grato pela oportunidade que ora me ofereceis de conhecer novas terras, as quais já admiro mesmo antes de vê-las. Garanto a Vossa Majestade que vamos fazer lá muitas coisas agradáveis a Deus.’
E curvando-se respeitosamente ante o soberano que o despedira entusiasticamente, retirou-se. O rei passaria uma noite rememorando as palavras de Fernando, sem conseguir entender o seu sábio e elevado sentido, sem, contudo, deixar de confiar no nobre súdito. Além disso, tinha interesse em sua saída da Espanha.
Assim, em um dia do ano de 1649, em que reinava em Roma Inocêncio X, ou João Batista Panfili, desembarcava no litoral do Brasil, secretamente, na condição de turista, o enviado do rei da Espanha.
Desceu Miranez pela primeira vez em corpo físico, nas terras com as quais sempre sonhara. Como que agindo segundo os ditames do coração, descalçou as botas e pisou a terra, sentindo-a sob seus pés, como se identificando com ela, recebendo-lhe o calor. Ao mesmo tempo, lágrimas que marejavam seus olhos caíam no solo generoso que as recebia, umedecendo-se com elas, ocorrendo desse modo uma permuta de valores, cujo resultados benéficos seriam constatados através dos tempos.
Acontecimento notável em sua chegada foi o fato de vários índios que se encontravam na praia virem ao seu encontro como que para recepcioná-lo, ao tempo em que o pajé da tribo a ele se dirigia e, apontando para o seu lado direito, exclamava: ‘Babagi! Babaji!’
Babaji era uma divindade indígena, tida pelos estranhos como uma lenda, que curava os enfermos através dos curandeiros das tribos. Era, na realidade, uma entidade espiritual e vinha ao lado de Fernando, ajudando-o a andar na areia onde seus pés deslizavam. Este, logo se viu cercado pelos novos amigos, que nele sentiam condições de proporcionar alívio aos sofrimentos e perseguições por que vinham passando, ante o domínio dos invasores estrangeiros.
Apesar de ainda não falar seu idioma, entendia-os pelos gestos e por intuição, o que denotava a afinidade existente. Assim, tendo se misturado com os nativos, ninguém suspeitava de sua condição de súdito espanhol a serviço secreto do rei.
Em curto espaço de tempo, Fernando já assimilara os diversos dialetos indígenas e africanos, movimentando-se com desenvoltura entre os humildes.
Em 1653, desceu no Maranhão, onde se encontrava Fernando, o temido e pregador, representante de Roma e de Portugal; Padre Antônio Vieira, que em seus famosos sermões acionava forças desconhecidas e dominava com facilidade aqueles que o ouviam. Era esse homem que Felipe IV, rei da Espanha, temia retornasse ao Brasil.
Em cumprimento à missão de que estava incumbido, comunicava ao seu soberano os acontecimentos que poderiam ser benéficos ao Brasil, omitindo notícias que poderiam prejudicar os povos que nele já lançavam raízes.
Certa noite, quando contemplava as estrelas, sobreveio forte lembrança da pátria distante, onde dispunha de inúmeros e valiosos bens, entre propriedades e terras abundantes. Enquanto meditava se deveria regressar à Espanha, sentiu uma voz suave, como se nascesse dentro de sua consciência, recomendando-lhe: ‘Vai, vende todos os teus bens, distribui-os entre os pobres e terás um tesouro no céu; depois, vem e segue-me.’ Surpreso, sentia que aquela voz era sua conhecida; mas, de onde? Parecia-lhe que já a escutara antes, mas quando? Achava-se perdido no oceano dos séculos. Contudo, a voz fez-se ouvir novamente: ‘Fernando; podes vender todas as tuas posses na Espanha e distribuir o dinheiro entre os necessitados de tua pátria. Os daqui, necessitando passar pelos processos renovadores, precisam mais da tua riqueza mental, do resultado de tuas mãos operosas, do tesouro armazenado em teu coração e da tua presença confortadora’.
Miranez, então, resolveu enviar procuração a amigos de sua confiança, autorizando-os a dispor dos seus bens e distribuir o resultado entre os carentes e sofredores da Península Ibérica.
Não chegou a ficar sabendo o que foi feito de suas riquezas materiais, porém, passou a viver um estado de consciência tranqüila, única riqueza que acompanha seus portadores eternidade a fora.
Após aquelas providências, sua vida em muito mudou. Aquele homem culto e fascinante foi descoberto pelos catequizadores entre os índios e os escravos africanos, como pastor de dois rebanhos. Alguns índios e negros não se davam bem, hostilizando-se mutuamente. Trabalhando arduamente pela aproximação e convivência das duas raças, em pouco tempo seus esforços eram coroados de êxito, quando índios e negros festejavam juntos suas tradições, unidos pelos laços da amizade e do sofrimento.
Miranez, então, passou a freqüentar o grupo de catequizadores por encontrar ali campo propício à prática dos seus ideais. Como resultado de seu trabalho e esforço conjunto, mais tarde foi promulgada, em 1680, a lei de proteção aos índios.
Junto com jovens escravos, que vez por outra recebiam permissão de seus senhores para visitarem seus pais e avós, Miranez, certa manhã, buscou os casebres para rever seus tutelados, levando-lhes o conforto de sua palavra fraterna e confortadora. Todos o tinham como ‘Pai Branco’, ‘Filho do Sol’ ou ‘Homem que veio da Luz’.
Ao levantar a cabeça, fixando o olhar nas nuvens, como costumava fazer, punha o coração ao alto e a mente em sintonia com o Todo Poderoso. O ambiente se asserenava, envolvendo em suaves vibrações aqueles que o cercavam.
Ao regressar, passeando a beira de murmurante regato de águas cristalinas, acompanhado, como de costume, por uma velha preta, ao passar beirando um barranco onde a vegetação se adensava, foi atacado por perigosa e venenosa jaracussu, cuja picada comumente resulta mortal, sendo atingido na perna, abaixo do joelho.
A preta velha viu o réptil dando o bote e a água do riacho tingir-se de sangue. Saiu a correr para o povoado em busca da velha benzedeira Pari, que nos seus noventa anos a muitos salvara pelos seus dons de curar várias enfermidades. Ao ser localizada e informada do ocorrido, a velha Pari, já acostumada a essas emergências, apanhou alguns apetrechos e saiu pressurosa em socorro ao Pai Branco.
Miranez, já com muita experiências vividas entre índios e negros, também tomara seus cuidados: lembrando-se de um cordão com vários nós intercalados que carregava em seu bornal, tomou-o e com ele amarrou a perna ofendida, na altura do joelho, impedindo a circulação. Tal cordão ele recebera de sua mãe querida, nos minutos finais de sua vida na terra, explicando-lhe sua origem. Pertencera a um bondoso pároco português que se dedicava à cura. Em seus últimos momentos, disse-lhe: ‘Meu filho, quando o velho padre me passou este cordão, de seus dedos desprendiam-se pequenos raios de luz que eram absorvidos pelos nós do cordão. Carreguei-o comigo por vários anos e muitas vezes utilizei-o em favor do alívio das pessoas. Agora, passo-o a você, para que seja usado em seus momentos de dificuldade e de aflições.’ Abençoando-o, desfalecera e regressara à pátria espiritual.
A negra Pari, chegando, fez com que Miranez se assentasse num lajedo, levantasse os olhos e, como se conversasse com alguém invisível, pronunciava palavras ininteligíveis. Em dado momento, colocou os lábios sobre o ferimento e sugou por várias vezes o sangue já enegrecido, cuspindo-o para o lado. A seguir, colocou algumas ervas na boca, mastigou-as e tornou a cuspir, lavando-a nas águas do riacho. Torna a repetir a operação, colocando as ervas maceradas sobre o ferimento, que logo parou de doer.
Com um suspiro profundo e se recompondo, a boa escrava retirou o cordão benfazejo da perna de Miranez, ajudou-o a caminhar em demanda a seu casebre, onde o fez ingerir uma beberagem. Miranez sentia cada vez mais gratidão e amor por aquela gente simples, filha de Deus, que, dentro do possível, tudo fazia em seu benefício.
Após anos de atuação entre aqueles que convivia, deu-se sua passagem para o plano espiritual num quadro de elevada suavidade. Os negros e os índios catequizados formavam extensa fila para beijar-lhe as mãos, que tanto os ajudaram a viver. Enquanto esteve lúcido, Miranez abençoava-os, um por um.
Nos momentos derradeiros, Fernando Miranez de Olivídeo percebeu a presença da mãe extremosa, bem como de sublimada entidade que ele prefere não identificar, por julgar não merecer tamanha honra.
Com lágrimas nos olhos, Miranez desprendeu –se do vaso físico e já fora dele, chorou de felicidade e agradecimento, por ter ingressado no Brasil pelas portas do amor e da caridade, que lhe foram abertas por Jesus.

LIVRO: Iniciação
AUTOR: João Nunes Maia 


Axé a todos
Emidio de Ogum
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